Há quase duas décadas, o professor István Jancsó observou que "A cada época os seus problemas, seus fantasmas e suas esperanças. [...] Aquem se dispõe a resistir às patologias que encerram, as crises impõem paciente reflexão com base em obstinado trabalho investigativo,inescapáveis condições da elaboração teórica que possa - e somente ela permite intentá-lo - conferir pertinência às problematizações damatéria histórica que guarda o substrato do enigma brasileiro". Taisensinamentos compunham um conjunto de reflexões emergentes e,portanto, não majoritárias à época, e que balizariam desde então osestudos sobre as Independências a partir das especificidadesamericanas, resultantes de uma interface entre metrópole e colônianada linear.
Nessa esteira, o livro ora apresentado reúneresultados de pesquisa derivados de uma contínua renovaçãohistoriográfica, vinculada a essas premissas. Aqui, o exercício deapreensão do todo que constituía o mundo luso-brasileiro foi praticado tendo como foco as partes: entre o Rio de Janeiro e Lisboa (LúciaBastos, Andréa Slemian e Renata Fernandes, Marieta Ferreira), entreRecife, Rio de Janeiro e Coimbra (Paulo Cadena), entre Lisboa eSalvador (Sérgio Guerra Filho), e entre o Rio de Janeiro e Recife(Paula Botafogo).
Se há duzentos anos a multiplicidade de projetospolíticos dava o tom da cena pública, redimensionando estratégiasdiscursivas em meio a um mundo em que a imprensa já conquistara status de protagonista dos acontecimentos, os distintos tempos de reescritasobre esse vivido impuseram novas questões. Em tempos de bicentenárioda efeméride, também resultante da fixação de certa memória produtorade solidez e perenidade, este livro espera produzir outros efeitos,próprios do tempo em que se insere, delineado por outros problemas,fantasmas e esperanças.